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Porque o achismo e o empirismo sobrevivem na sala de musculação?

Por maior que seja o acesso à evidências, por mais estudos que sejam realizados, por mais que se tente mudar paradigmas, a sala de musculação continua estagnada e fadada a trabalhar como se trabalhava a 60-70 anos atrás. Mas porque isso acontece?

Porque o achismo e o empirismo sobrevivem na sala de musculação?

Nessas últimas semanas eu comecei a conversar com uma amiga sobre a sala de musculação e sobre a prescrição de exercícios resistidos. Apesar de ela não ser formada em Educação Física ela é uma entusiasta e muito empenhada em seus treinos.

E como todo entusiasta, ela sempre está buscando mais informações para de , alguma forma, conseguir chegar a seus objetivos da maneira mais rápida e eficiente possível.

Assim como todas as pessoas que não são experts no assunto, o comum é procurar que na teoria quem entende disso, e inevitavelmente será o professor mais forte e musculoso da academia.

Não tem porque perguntar sobre musculação pro cara de 1,94m e apenas 85kg, correto? Hummm...

Toda a nossa conversa baseou-se sobre que tipos de informações ela recebeu dos “experts” dentro da sala de musculação, o professor musculoso e atleta de fisiculturismo, e sobre quais das informações fornecidas tem qualquer tipo de amparo e sustentação científica.

E a primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de senso comum e empirismo que ainda reina dentro da sala, e que, de verdade, me surpreendeu um pouco.

Eu acho que minha surpresa se deve ao fato de estar nos últimos 10 anos atuando apenas na área acadêmica, ministrando aulas nos cursos de graduação e pós-graduação, e entender e acreditar que a prática só é válida se sustentada de forma teórica. E não o contrário.

Esse afastamento que eu tive da sala de musculação, apesar de trabalhar por quase 10 anos como professor em academias, me fez acreditar que o aumento da facilidade de acesso à informação tivesse modificado significativamente a atuação do profissional. Pois é, para minha surpresa, não parece ter mudado.

Coisas como exercícios isolados, alta ingestão de proteínas, dietas com isenção de carboidratos, aeróbico em jejum, treinos com mais de 1h, exercícios com caneleiras, entre outras coisas, ainda estão bem vivas nesses ambientes.

Após uma longa conversa, minha amiga fez a pergunta que me levou a escrever esse texto: se a gente sabe que tem um jeito melhor, porque ainda se faz isso?

Pois é, vou tentar explicar.

Falta um pouco de estudo

Eu acredito que o primeiro e grande fator que leva a perpetuação de ações pouco eficientes e as vezes até equivocadas é a falta de estudo.

E quando eu falo de falta de estudo, não é no sentido de não buscar informações. Muitas vezes é que a fonte que se está utilizando para buscar tais informações não é a mais adequada. Outras porque é uma fonte ruim mesmo.

Do mesmo jeito que a internet facilitou o acesso a informações de qualidade, também facilitou a divulgação de informações porcaria. Hoje qualquer um com 50cm de braço ou com uma bunda linda, da dicas de treino.

E como algumas dessas pessoas tem o dom da palavra, e conseguem falar e organizar ideias de uma forma muito boa, a impressão que se tem é de que aquilo é verdade.

E porque seria mentira, não é? O cara é enorme e ela é toda sarada. Porque fazer o que eles fazem seria algo que estaria incorreto?

Infelizmente a maior parte das pessoas ainda não consegue separar quem SABE FAZER daquele que SABE PORQUE ESTÁ FAZENDO.

Eu ainda sou otimista e acho que não é falta de vontade, é pura falta de informação de qualidade mesmo.

Só pra ilustrar a ideia, abaixo a foto de Usain Bolt e seu treinador, Glen Mills. Não sei porque, não acredito que o Glen seja um cara tão rápido assim, rsrsrsrs.

glen mills

Falta um pouco de humildade

Assim como em todas as áreas, sempre existe o “dono da verdade”. E na sala de musculação, quanto mais “experiente”, mais esse cara possui o “conhecimento”.

Esse monte de aspas na frase anterior são pra dar um certo tom de cinismo, ok?

É impressionante como conhecer de musculação, fisiologia do exercício, anatomia, biomecânica, cinesiologia não são suficientes para que você seja escutado. É necessário ser enorme, usar suplementos e regata para que as pessoas te deem ouvidos.

E o mais impressionante é que não são os leigos que tem essa resistência, são os outros profissionais. E isso é muito engraçado (na verdade é meio triste), porque o que conta não é a qualidade dos argumentos, é o “shape” do individuo.

Isso pra mim é meio estranho, porque na área que eu atuo o que pesa sempre é a qualidade dos fatos e a forma com que a pessoa usa isso para defender uma ideia. E isso deveria ser assim em todas as áreas. Mas na musculação, estranhamente, existem outros valores mais importantes.

Existe muita resistência à mudança

Bom, que a quebra de um paradigma é algo difícil, isso todos sabemos. Eu falar que o exercício de rosca direta com barra pode ser algo dispensável para mais de 90% das pessoas que pratica musculação, vai gerar um enorme de um desconforto, principalmente pra quem faz o exercício e sempre acreditou nos seus efeitos.

Mas por sorte, um texto publicado a pouco na Scientific American pode nos ajudar a entender porque isso acontece. O titulo do texto é: como convencer alguém quando os fatos falham; porque ameaças às visões do mundo minam evidências.

O texto é muito bem escrito e basicamente explica porque a ideologia e filosofia de vida de uma pessoa podem ser mais fortes do que o mais claro de todos os argumentos.

O autor do texto (aqui o link) dá vários exemplos de situações em que, mesmo existindo argumentos claros de que aquela realidade é equivocada, existam ainda pessoas que acreditam nela.

Um desses exemplo envolve a justificativa de invasão dos americanos ao Iraque, com o “argumento” da existência de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Quando o governo divulgou um artigo afirmando que elas nunca existiram, os céticos que defenderam a invasão não só rejeitaram o argumento, como afirmaram que isso só confirma a sua existência, e que Saddan Hussein fez de tudo para escondê-las.

Apesar de não utilizar nenhum argumento sobre prescrição de exercícios, pra mim encaixou como uma luva. Imagine que você durante décadas acreditou num certo modelo de treino e dieta, e conseguiu o corpo que queria fazendo isso daquela forma.

Como pode chegar alguém e dizer que existe uma forma melhor, e que ela é completamente diferente da que eu estava utilizando. E tudo aquilo que eu “acredito”? E minha “filosofia” de treino?

Infelizmente essa pode ser a maior das dificuldades. Aceitar mudanças. Aceitar que tem alguém que sabe mais do que a gente (e eu me incluo nessa). Aceitar que ser o maior, mais forte, mais rápido e o mais experiente não tem necessariamente relação alguma com ser quem mais entende do assunto.

E o que fazemos então?

Mente aberta! Acho que essa é a melhor sugestões. Quando alguém lhe trouxer novidades, informações, argumentos, baseie suas escolhas apenas na qualidade do que você recebe, e esteja aberto a mudar de opinião.

Não tem nada de errado nisso. Mudar de opinião demonstra uma enorme capacidade intelectual de perceber que não se sabe tudo e que se tem muito para aprender. E isso não deve ter relação com quem passa a informação, e sim com a informação em si.

Note, não estou dizendo para você aceitar tudo que lhe entregam, mas que você esteja aberto pra escutar e se discordar, que tenha ARGUMENTOS para tal.

Enquanto isso não acontecer na sala de musculação, vamos continuar acreditando que aeróbico em jejum emagrece, que 4 x 20 não aumenta a massa muscular e que treino bacana era o do Arnold Schwarzenegger lá nos anos 70.

 

Grande abraço

 

Se você precisar de ajuda para a organização de programas de exercícios de musculação ou quiser montar um curso de capacitação para os profissionais da sua academia, entre em contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

 

Link do artigo

https://www.scientificamerican.com/article/how-to-convince-someone-when-facts-fail/

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