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Eletromiografia e musculação: CUIDADO! Leia isso antes de tomar decisões.

Um dos recursos mais populares para investigar a ação muscular, é a avaliação do seu nível de ativação durante o exercício. Mas até que ponto isso é realmente útil?

Eletromiografia e musculação: CUIDADO! Leia isso antes de tomar decisões.

Se você já fez musculação alguma vez na sua vida, já deve ter ouvido seu professor falar que o exercício desse jeito “pega” mais tal músculo e daquele jeito “pega” mais outro músculo, certo? Mas até que ponto isso realmente é verdade?

Bom, vamos do começo. Esse tipo de afirmação é definida com base em conceitos anatômicos, cinesiológicos (estudo do movimento) e biomecânicos. Dentre os biomecânicos, a eletromiografia, a avaliação da atividade elétrica do músculo, é um deles.

Esse tipo de procedimento é utilizado a mais de um século para conseguir verificar a forma com que controlamos nossos músculos a partir da medição do impulso elétrico que ele recebe.

Isso é extremamente útil em inúmeras avaliações, como aquelas que investigam a coordenação motora, ou como os diferentes músculos são ativados quando queremos realizar um certo movimento.

Isso ajuda, por exemplo, o pessoal que trabalha com esporte a entender melhor padrões e técnicas ideais para a realização de movimentos esportivos, ou na fisioterapia, para conhecer e recuperar movimentos funcionais.

Entretanto, nos últimos tempos, análises eletromiográficas tem sido utilizadas para investigar o nível de ativação muscular em exercícios resistidos. O que é válido, já que nos ajuda a entender o padrão de recrutamento em diferentes variações dos exercícios.

Porém uma segunda aplicação complica todo o processo: associar eletromiografia com hipertrofia, assumindo que um movimento que gera mais ativação no músculo A do que no B, vai produzir mais hipertrofia em A do que em B. Isso é um perigo ENORME! Mas vamos lá.

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O que gera hipertrofia?

Para que a hipertrofia aconteça é preciso um estímulo no músculo. Esse estimulo é basicamente um estresse, que vai ser mecânico e fisiológico. Dependendo do modelo do treino mais mecânico que fisiológico, em outras condições, mais fisiológico que mecânico.

Mas percebam que o grau de ativação muscular por si só não é um estímulo direto para que a hipertrofia ocorra. É claro que isso pode permitir que algumas inferências sejam realizadas, mas não representam DIRETAMENTE o nível de estresse recebido.

Vamos pensar no exercício de supino reto com barra. Quando realizamos o movimento temos duas fases: a concêntrica (subida) e a excêntrica (descida). Em ambas temos diferentes atividades elétricas, estresses mecânicos e fisiológicos, mais ou menos dessa forma:

 

                                               SUBIDA:                     DESCIDA:

Estresse mecânico:                menor                         maior

Estresse fisiológico:               maior                          menor

Ativação muscular:                maior                          menor

 

Perceba que na fase da descida, a excêntrica, existe um grande estímulo mecânico para a hipertrofia, porém um nível de ativação relativamente menor. Ou seja, menos atividade elétrica não é necessariamente menos hipertrofia. A análise do exercício tem que ir além apenas da atividade elétrica muscular, e eu já falei disso algum tempo atrás.

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Ativação do músculo e força gerada

Outro cuidado que deve ser tomado é que nem sempre maior nível de ativação média, desconsiderando as fases excêntricas e concêntricas, significam realmente maior trabalho (força) muscular.

Existem alguns fatores que podem interferir nesse processo, e que devem ser levados em consideração.

Vou dar um exemplo: existe um problema muscular bem comum, chamado síndrome de dor patelofemoral. Essa síndrome é associada a uma diferença na quantidade e velocidade de ativação de dois músculos da coxa (quadríceps), o vasto medial e vasto lateral.

Segundo a maior parte dos estudos sobre eletromiografia e dor nessa situação, o vasto lateral de certas pessoas ativa muito antes e muito mais do que o vasto medial, o que provoca uma certa lateralização da patela, e com o tempo, dor.

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Porém um estudo publicado em 2015 trouxe algumas informações valiosas sobre o assunto. E a principal delas foi: a ativação muscular não pode ser utilizada para fazer inferências sobre a força que o músculo produziu.

Como existe uma série de fatores que interferem na força muscular, além da sua ativação, olhar exclusivamente para a eletromiografia e deduzir o trabalho realizado(e no caso da hipertrofia, o estímulo recebido), é no mínimo uma abordagem simplista.

Variações e diferenças na ativação

Outra abordagem que não faz sentido, é assumir que variações em execução de exercícios, que possam gerar diferentes níveis de ativação, vão gerar diferentes resultados hipertróficos.

Sabe a história do miolo do peito e da ponta do bíceps? Balela total.

Qualquer um que tenha um mínimo de entendimento de anatomia, cinesiologia e biomecânica sabe que isso é simplesmente impossível de rolar.

Além disso, existe um tremendo problema de interpretação de resultados por parte de quem, na ânsia de divulgar informações científicas, acaba comentando esse tipo de estudo.

Vamos a mais um exemplo. Nessa ultima semana eu vi uma postagem sobre uma suposta “diferença” na ativação das porções do gastrocnêmio quando se realizava o exercício com os pés alinhados, rodados externa e internamente.

E nessa postagem, o professor associava isso a uma “estratégia” para dar mais ênfase em uma ou outra porção, quando isso fosse pretendido. Mas temos muuuuuitos problemas... no estudo e nessa ideia.

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Primeiro, eu gostaria de entender como a rotação do quadril pode interferir de forma significativa na atividade de músculos que só atuam sobre tornozelo e joelho.

Segundo, a diferença de ativação deve estar muito mais relacionada ao apoio no pé que muda (por causa da rotação interna e externa), já que isso interfere na forma com que você estende e flexiona o tornozelo, do que realmente na rotação e mudança da ação muscular em si.

Terceiro, no artigo fica fácil perceber que a colocação dos eletrodos não parece a ideal. Principalmente o da porção lateral do gastrocnêmio que ficou muito próximo do músculo fibular longo, podendo gerar um efeito de crosstalk. Isso acontece quando o eletrodo começa a pegar sinal de um músculo muito próximo ao músculo alvo, e o sinal muda.

Quarto, no artigo foi usada uma carga leve (adição de 30% em relação a massa corporal) e foram realizadas apenas 5 repetições. Isso é pra ser estímulo para a hipertrofia? Como então utilizar o resultado para fazer tal tipo de inferência?

E finalmente... no próprio artigo os autores escreveram: “se essas diferenças de ativação vão se traduzir em diferentes adaptações das porções do gastrocnêmio, isso ainda precisa ser estudado”

Resumo da ópera

Cuidado com a eletromiografia quando associada a hipertrofia. É muito fácil cometer uma gafe. Pare de acreditar que o grau de ativação muscular, pura e simplesmente, podem te dizer o que vai acontecer.

Além disso não ache que músculos com menos ativação está trabalhando menos ou não está recebendo estimulo necessário para se desenvolver de forma ótima. Variações nos exercícios existem para mudarmos os estímulos ao longo de um período de treino. Não para conseguirmos respostas diferentes. Esqueça o miolo do peito!

Quando olhamos para um exercício, temos que olhar sobre todas as perspectivas possíveis: fisiológica, mecânica, elétrica, entre outras. Olhar uma única informação e decidir tudo a partir dela é dar um tiro no próprio pé.

Se você ainda tem dúvidas, comente e compartilhe esse artigo. Vou ter o maior prazer de te responder. Grande abraço.

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