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Gordura vira músculo... ela não é simplesmente “queimada”! Veja aqui a explicação para o mito do fat-burner.

O catabolismo de gordura sempre foi explicado pelo seu uso na geração de energia, e consequente formação de H2O e CO2. Entretanto é fato que grande parte disso vira SIM massa magra.

Gordura vira músculo... ela não é simplesmente “queimada”! Veja aqui a explicação para o mito do fat-burner.

Quando pensamos em emagrecimento, duas estratégias nos vem à cabeça: 1) não acumular mais gordura e 2) dar um jeito de “queimar” a gordura que já temos. E o termo usado no item 2 é esse mesmo, queimar. A explicação que sempre recebemos é que a gordura é um macronutriente estocado como reserva energética, e que a realização de atividades físicas associada a uma dieta com restrições geraria um balanço energético negativo. Sendo assim, utilizaremos a gordura estocada para compensar esse débito e ela seria gradativamente reduzida para formação de energia, e o que sobraria seriam moléculas de água e de dióxido de carbono.

 

Mas essa teoria tem falhas. Graaaaandes falhas. Vamos a elas.

 

O metabolismo basal é responsável por aproximadamente 50-70% do gasto energético diário, sendo que a maior parte dessa energia vem via ácidos graxos livres (AGL) retirados dos estoques de gordura corporal. Isso é facilmente verificado quando se observa que antes da refeição a quantidade de AGL e glicerol circulantes no sangue abdominal e 3x maior do que no antebraço. Isso suge que os músculos vão utilizando a gordura conforme ela vai circulando e assim a sua concentração no sangue vai reduzindo conforme o sangue se aproxima da periferia corporal. Aproximadamente 1h após se realizar uma refeição, essa diferença entre a concentração de AGL do sangue abdominal e muscular periférico cai a zero, sugerindo que a preferencia agora é para os nutrientes que foram absorvidos da comida.

 

Sendo assim, se os AGL são continuamente retirados dos adipócitos ao longo das 24hs do dia, porque existem tantos indivíduos obesos? E porque grandes períodos de jejum não são eficientes na redução da gordura corporal?

 

Sabendo que tanto os adipócitos quanto os músculos tem grande capacidade de estocar compostos de carbono (gordura, carboidratos e proteínas) a determinação do destino dos carbonos (tecido muscular ou adiposo) determina em muito a composição corporal final do indivíduo. Sabe-se, por exemplo, que se for realizado o incentivo a síntese de proteínas musculares (hipertrofia) o tecido gorduroso tende a ser reduzido, pois os nutrientes são encaminhados a esse tecido (músculo) e não às reservas (gordura). Além disso, essa maior massa muscular demandará maior consumo energético, ajudando na manutenção de uma menor massa de gordura abdominal.

Existem duas hipótese para explicar como os hidrocarbonetos provenientes dos macronutrientes dietéticos são estocados no músculo (glicogênio e/ou proteínas) ou no tecido adiposo (gordura). Uma delas é a hipótese da redistribuição. Os carbonos provenientes da dieta e os extraídos do catabolismo lipídico, glicídico e protéico são redistribuídos e apenas parcialmente utilizados na geração de energia. Quando se fraciona uma molécula de ácido graxo, por exemplo, parte dos hidrocarbonetos pode ser utilizada na construção de moléculas de miosina, células sanguíneas, tecido ósseo, ou qualquer outra estrutura que necessite de tal composto. Essa redistribuição dos carbonos é positiva, ou seja, influencia mais a síntese de proteínas do que a de lipídios, quando o tecido muscular é mais ativo e o intervalo entre as refeições tende a não ser prolongado. Pessoas ativas e que fazem refeições com pequenos intervalos entre elas, tendem a conduzir os hidrocarbonetos preferencialmente ao tecido muscular esquelético.

 

Uma segunda hipótese é a da queima de gordura exclusivamente para geração de energia, a ideia do fat-burner. Entretanto as evidências para sustentar tal hipótese são falhas.

 

Uma das falhas é verificada quando se monitora o consumo de gordura (por calorimetria) e sua relação com o exercício. Alguns estudos demonstraram haver uma redução da gordura corporal em indivíduos submetidos a prática de atividades físicas, concomitantemente com o aumento da massa muscular. Mas não foram verificados aumentos na oxidação de gorduras ao longo do dia. Como as gorduras se reduziram se não foram oxidadas para a geração de energia? Provavelmente foram realocadas em outros tecidos na forma de outras estruturas!

 

Um experimento foi conduzido para verificar a hipótese de redistribuição. Dez nadadores foram levados a uma altitude de 2300m (condição de hipóxia, baixa concentração de oxigênio) e durante 3 semanas mantiveram um volume de treinamento de 12,3km/dia. Ao final do experimento, a massa total foi inalterada o que comprova que não houve mudança no conteúdo total de hidrocarbonetos no indivíduo. Entretanto, comparados aos sujeitos que treinaram ao nível do mar, os indivíduos submetidos ao treinamento em altitude apresentaram redução da gordura e aumento da massa muscular. Como isso é possível num ambiente que não permite a oxidação adequada de gordura pela falta de oxigênio?

 

Isso quebra um enorme paradigma dentro da prática de exercícios. A ideia de que o emagrecimento se dá pela “queima” de gordura, e que o exercício aeróbico moderado e prolongado seria o mais eficiente para essa finalidade. Mas e se a energia utilizada para sustentar músculos mais ativos não vier exatamente da gordura? E se essa gordura da reserva, for na verdade uma reserva de hidrocarbonetos, utilizados prioritariamente como fonte de material para o reparo e remodelação dos outros tecidos?

 

Isso explicaria porque exercícios sem nenhuma característica aeróbica, que utilizam prioritariamente o glicogênio muscular, são os mais eficientes para o emagrecimento. Isso também explica porque em algumas pesquisas que utilizaram esse tipo de exercício, o consumo de energia após a atividade (metabolismo basal) foi aumentado, porém sem aumentos no consumo de oxigênio (EPOC), imprescindível para o metabolismo energético a partir da gordura. Desse modo, exercícios puramente anaeróbicos impediriam a produção adequada de energia pela insuficiência de oxigênio. Essa rica reserva de Acetil-CoA que não poderia ser oxidada seria convertida por uma série de reações enzimáticas em cetonas, amino ácidos, colesterol e ácidos graxos. E então esses aminoácidos poderiam ser utilizados para construir qualquer coisa.

 

Inclusive aumentar a massa muscular.

 

Pensando nisso, que tipo de exercício você faria para aumentar o gasto de gordura? Escreva aqui nos comentários.

 

Abraço.

 

Link do artigo

 

Chia-Hua Kuo,M. Brennan Harris. Abdominal fat reducing outcome of exercise training: fat burning or hydrocarbon source redistribution? Canadian Journal of Physiology and Pharmacology, p1-4, March 2016.

http://sci-hub.cc/10.1139/cjpp-2015-0425

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