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Algumas coisas que você corredor pode não saber sobre sua flexibilidade

Entenda como se preocupar em realizar exercícios de alongamento pode interferir diretamente na sua eficiência de corrida.

Algumas coisas que você corredor pode não saber sobre sua flexibilidade

Como eu havia comentado no ultimo post aqui do site, eu acabei sendo “induzido” durante meu período como estudante de pós-graduação a ler muito sobre os exercícios de alongamento e sua capacidade de influenciar positivamente a locomoção.

E uma das principais relações entre a flexibilidade dos tecidos e a eficiência durante a caminhada e a corrida, está na capacidade de acumular e dissipar energia de forma elástica.

Um artigo bem recente publicado por Thomas J. Roberts (2016) no Journal of Experimental Biology (veja o link do material lá no final desse texto) discute vários aspectos sobre a contribuição mecânica dos tecidos elásticos na economia de energia.

E lembre-se corredor: economia de energia (ou economia de corrida) é o segredo para uma melhor performance.

A influência dos tendões no reaproveitamento da energia

Pois bem, nesse artigo o autor fala sobre diversos temas, mas hoje eu quero mostrar pra você o que ele chama de ação cooperativa entre o tecido conjuntivo e muscular e a influência da flexibilidade nesse processo.

Para deixar a compreensão mais simples, eu vou utilizar o exemplo de um único tendão, de um único músculo ao redor de uma única articulação, ok? Mas que fique claro que isso vale para absolutamente todos os músculos envolvidos na corrida. A flexibilidade de todos contam.

Imaginemos o tendão do calcâneo e o musculo do gastrocnêmio ao redor da articulação do tornozelo.

anatomia tornozelo

Quando você corre a parte anterior do seu pé toca o solo com uma grande velocidade, e isso provoca uma pequena e rápida flexão (ou dorsiflexão) do seu tornozelo.

Mesmo que você não faça o contato com o solo com a parte anterior do seu pé e sim com o pé todo (chapado) ainda assim você terá o início de uma flexão do tornozelo, já que o pé se fixa ao solo e você “pendula” sobre ele.

strike and foot off

Nesse primeiro momento, antes mesmo do músculo começar a ser alongado, existe um alongamento do tendão do calcâneo, já que o tornozelo está sendo flexionado.

Esse alongamento faz com que uma grande quantidade de energia elástica se acumule dentro desse tecido (2). Imediatamente após esse instante, o músculo sofre um pequeno estiramento (3), e uma parte pequena da energia acumulada no tendão é perdida, entretanto, todo o músculo está agora em pré-estiramento, e no início da contração para o próximo passo praticamente não haverá perda de energia.

A partir desse pré-estiramento a contração do gastrocnêmio se inicia e novamente o tendão é alongado e energia elástica é acumulada (5). Logo em seguida, essa energia é liberada e o tornozelo é estendido (plantiflexão) de forma rápida e potente (6). Veja a figura abaixo para compreender melhor a idéia.

acumulo energia tendao

Essa primeira fase de acúmulo de energia Roberts chamou de “power attenuation” e explica a capacidade que os tendões, desde que com uma flexibilidade adequada, tem de reduzir o trabalho muscular de frear movimentos de forma excêntrica.

É como se o trabalho que era exclusivamente muscular, e que custava energia para ser realizado, agora é parcialmente responsabilidade dos tendões, o que reduz o custo energético do movimento. E isso acontece porque tecidos como o conjuntivo geram energia de forma passiva, apenas em razão de suas características mecânicas.

Mas não para por aí. Essa energia, em movimentos rápidos como uma corrida, não é simplesmente perdida. Ela é reutilizada. Roberts chamou esse fato de “power amplification”. Ou seja, o tendão acaba somando a energia elástica com a capacidade de contração muscular e você pode ter dois resultados:

1) você amplifica a potencia muscular utilizando essas duas “fontes” de energia para o movimento;

e/ou

2) você economiza energia; você agora gasta menos para realizar o mesmo movimento, já que parte da energia foi simplesmente reaproveitada da capacidade elástica dos tendões de acumular;

running stretch 3

E onde entra a questão da flexibilidade?

Já que esse efeito é diretamente relacionado com a capacidade dos tendões de acumular energia, o que acontece com um tendão pouco elástico? Não acontece!

Um tecido rígido e pouco flexível tem sua capacidade de acumular e liberar energia bastante reduzida. E note que isso não tem necessariamente a ver com a amplitude de movimento que sua articulação é capaz de realizar.

No post anterior eu expliquei como músculos fortes podem contribuir para uma maior amplitude de movimento e que isso nem sempre pode ser vantajoso.

O que estou explicando aqui é que mais importante do que a capacidade contrátil do tecido muscular esta a capacidade passiva dos tendões de acumular energia, e que isso interfere diretamente na economia da corrida.

running stretch 1

O autor do artigo apresenta um dado interessante que reforça esse argumento, utilizando exatamente a corrida como exemplo. Roberts cita estudos que avaliaram o custo energético para correr e a energia liberada por cada músculo individualmente durante a corrida. E a conta simplesmente não bate.

O somatório da energia gerada nas ações musculares necessárias para a corrida é menor que o custo da corrida como um todo. E de onde vem essa diferença, que permite que você corra? Da energia elástica acumulada e dissipada pelos tendões.

E olha que eu ainda nem falei sobre a influência dessa maior flexibilidade dos tendões em absorver energia e diminuir o trabalho muscular, o que reduz o estresse e a probabilidade de lesões durante treinos e provas.

Mas isso é assunto para outro post.

Abraço.

 

Se você quiser assessoria na montagem de programas de força e flexibilidade voltados exclusivamente para a corrida, entre em contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Link para o artigo

 

Thomas J. Roberts. Contribution of elastic tissues to the mechanics and energetics of muscle function during movement. Journal of Experimental Biology (2016) 219, 266-275

 

http://jeb.biologists.org/content/jexbio/219/2/266.full.pdf

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